Uma história de encontros, transformações e criação.
Um material para ler antes, durante e depois da visita, com perguntas, desafios e atividades para a turma.
Para começar: o que é Carnaval?
Quando pensamos em Carnaval, talvez venham à cabeça o samba, as escolas de samba, os blocos, as fantasias, os desfiles e a Sapucaí.
Mas o Carnaval é muito maior do que uma festa que acontece durante alguns dias do ano.
Ele envolve história, música, dança, religiosidade, trabalho, criatividade, memória, identidade e participação coletiva.
No Brasil, o Carnaval foi sendo construído ao longo de séculos. Muitas de suas primeiras referências vieram da Europa, mas as manifestações carnavalescas que conhecemos hoje foram transformadas pelas diferentes culturas que participaram da formação da sociedade brasileira.
Por isso, uma pergunta pode acompanhar toda a visita:
Como uma festa que atravessou o oceano se transformou em tantas formas diferentes de celebrar no Brasil?
Antes do Carnaval brasileiro: de onde veio essa festa?
A palavra Carnaval está relacionada a antigas tradições europeias de festas realizadas antes da Quaresma, período do calendário cristão marcado por práticas de preparação para a Páscoa.
Ao longo da história europeia, diferentes regiões desenvolveram festas com características como:
●uso de máscaras e fantasias
●música e dança
●brincadeiras nas ruas
●inversão temporária de papéis sociais
●comidas e celebrações coletivas
●sátiras e manifestações populares
Não existia um único "Carnaval europeu". Eram diferentes festas e costumes, que foram se transformando ao longo do tempo.
Quando os portugueses chegaram ao território que hoje chamamos de Brasil, trouxeram consigo costumes e formas de celebração presentes na sociedade europeia.
Mas, ao chegar aqui, essas práticas encontraram uma realidade completamente diferente.
O encontro com o Brasil
A história do Carnaval brasileiro precisa ser entendida dentro da própria história da formação do Brasil.
A sociedade colonial foi formada pelo encontro, e também pelo conflito, entre diferentes povos e culturas.
Entre eles estavam:
Povos indígenasportugueses e outros europeusafricanos trazidos à força pela escravização
Esses grupos possuíam diferentes formas de cantar, dançar, tocar instrumentos, celebrar, contar histórias e ocupar os espaços públicos.
As culturas africanas tiveram papel fundamental na formação das manifestações populares brasileiras.
É importante lembrar que essa contribuição aconteceu em condições de extrema desigualdade: milhões de africanos foram trazidos para o Brasil contra sua vontade e submetidos à escravização.
Mesmo diante dessa violência, seus conhecimentos, práticas culturais, formas musicais, ritmos, danças, valores comunitários e modos de criar contribuíram profundamente para a cultura brasileira.
O entrudo
Uma das manifestações que antecederam o Carnaval brasileiro foi o entrudo, prática de origem portuguesa que ganhou diferentes formas no Brasil.
Durante o entrudo, as pessoas ocupavam as ruas e participavam de brincadeiras que podiam envolver água, farinha, líquidos e outros elementos.
Havia diferentes formas de participação.
Nas casas das famílias mais ricas, algumas brincadeiras eram realizadas dentro de espaços privados.
Nas ruas, especialmente entre as camadas populares, as brincadeiras podiam assumir formas mais intensas e coletivas.
O entrudo foi sendo alvo de críticas e tentativas de controle pelas autoridades, especialmente durante o processo de modernização das cidades no século XIX.
Ao longo do tempo, novas formas de Carnaval foram surgindo e ganhando espaço.
O Carnaval muda
Durante o século XIX e o início do século XX, o Carnaval brasileiro passou por muitas transformações.
Novas formas de organização da festa apareceram.
Entre elas estavam:
●bailes carnavalescos
●sociedades carnavalescas
●cordões
●ranchos
●blocos
●grupos musicais
●manifestações populares de rua
O Carnaval deixou de ser uma única forma de festa.
Ele se tornou um grande conjunto de manifestações diferentes.
E cada cidade brasileira desenvolveu suas próprias características.
O papel das culturas africanas
Para compreender o Carnaval brasileiro, é fundamental conhecer a participação das populações negras na construção da cultura brasileira.
A música, a dança, a percussão, as formas de organização comunitária e diversas tradições afro-brasileiras influenciaram profundamente as manifestações populares.
No Rio de Janeiro, determinados territórios se tornaram importantes espaços de encontro e criação cultural.
A região da Praça XI, por exemplo, teve papel importante na história do samba carioca.
Ali circularam músicos, compositores, trabalhadores, artistas e comunidades negras que participaram da formação de uma nova linguagem musical e cultural.
Tia Ciata e as Tias Baianas
Entre as personagens fundamentais dessa história está Tia Ciata, nome pelo qual ficou conhecida Hilária Batista de Almeida.
Baiana de origem, ela se estabeleceu no Rio de Janeiro e sua casa tornou-se um importante espaço de convivência, música e sociabilidade.
As chamadas Tias Baianas (Ciata, Bebiana, Carmen, entre outras) tiveram papel importante na vida cultural da comunidade negra carioca.
Suas casas eram espaços onde diferentes práticas culturais podiam se encontrar.
Ali estavam presentes música, dança, culinária, religiosidade, festas e relações comunitárias.
A história do samba não pode ser separada dessas redes de sociabilidade.
Para saber mais: a Pequena África e a cultura negra carioca
A Pequena África, região que abrangia áreas como Saúde, Gamboa, Santo Cristo, Cidade Nova, Estácio de Sá e a antiga Praça Onze, foi um dos principais espaços de formação da cultura negra urbana do Rio de Janeiro. Após a Abolição, a região recebeu muitos negros e migrantes baianos, que mantiveram práticas religiosas, musicais e culturais de matriz africana.
O Carnaval foi fundamental nesse processo. Na Pequena África desenvolveram-se ranchos carnavalescos, rodas de batuque, partido-alto e, posteriormente, as escolas de samba. A Praça Onze tornou-se um importante ponto de encontro dessas manifestações e ficou associada à formação do samba carioca.
Um personagem central dessa história foi Tia Ciata (Hilária Batista de Almeida). Baiana, religiosa e liderança comunitária, ela mantinha em sua casa um espaço de convivência onde música, religiosidade afro-brasileira e sociabilidade se encontravam. Por ali passaram importantes músicos, como Pixinguinha, Donga, João da Baiana e Heitor dos Prazeres.
Assim, o Carnaval da Pequena África não surgiu apenas como festa. Ele também funcionou como espaço de preservação, transformação e afirmação da cultura negra, em um período posterior à escravidão marcado por desigualdades e tentativas de controle das manifestações culturais negras. O samba e as formas carnavalescas criadas naquela região ajudaram a construir uma parte fundamental da identidade cultural do Rio de Janeiro.
Um marco posterior foi a criação da Deixa Falar, em 1928, no Estácio, frequentemente apontada como a primeira escola de samba. A experiência das comunidades negras da Pequena África foi essencial para o desenvolvimento desse novo formato de organização carnavalesca.
O nascimento do samba
O samba não surgiu de repente.
Ele foi resultado de um longo processo de encontros, transformações e criações musicais.
Diversas formas musicais e práticas culturais participaram desse processo.
No Rio de Janeiro, o samba se desenvolveu em estreita relação com as comunidades negras e com diferentes espaços de sociabilidade. A região da Pequena África do Rio de Janeiro é o coração e a alma do samba carioca.
Em 1917, "Pelo Telefone", registrado por Donga e Mauro de Almeida, tornou-se um marco na história do samba gravado e é frequentemente lembrado como o primeiro samba registrado em disco com grande circulação.
Mas é importante evitar a ideia de que o samba foi "inventado" por uma única pessoa.
A formação do samba foi um processo coletivo.
Dos ranchos às escolas de samba
Os ranchos carnavalescos foram importantes manifestações do Carnaval carioca.
Eles apresentavam organização, música, personagens, fantasias e cortejos.
Com o passar do tempo, diferentes grupos foram criando novas formas de desfilar.
Na década de 1920, surgiram organizações que seriam fundamentais para a formação das escolas de samba.
Em 1928, foi fundada a Deixa Falar, no bairro do Estácio de Sá, considerada uma das primeiras organizações a utilizar a denominação "escola de samba".
A partir daí, as escolas de samba foram se consolidando e desenvolvendo características próprias.
Imagine que sua turma recebeu a missão de criar um pequeno desfile.
Etapa 1: Escolha um tema
Pode ser:
●uma história do Brasil
●uma história da cultura afro-indígena brasileira
●uma personalidade
●uma manifestação cultural
●um animal
●uma questão ambiental
●uma história da sua comunidade
●um tema inventado
Etapa 2: Crie o enredo
Em três frases, conte o que o desfile irá apresentar.
Etapa 3: Pense nas imagens
Que cores representam sua história?
Que formas?
Que personagens?
Etapa 4: Crie uma fantasia
Faça um croqui.
Indique os materiais que seriam utilizados.
Etapa 5: Crie uma alegoria
Desenhe um carro alegórico.
Pense em:
estruturamovimentoesculturacoriluminação
Etapa 6: Crie o samba
Escreva quatro versos que possam apresentar seu tema.
Etapa 7: Divida as funções
Quem fará cada parte?
●Pesquisa
●Enredo
●Música
●Desenho
●Fantasia
●Alegoria
●Dança
●Produção
●Apresentação
Etapa 8: Compartilhe
Apresente o projeto para outra turma.
Depois pergunte:
O que conseguimos criar juntos que seria difícil criar sozinhos?
Vocabulário do Carnaval
Entrudo
manifestação carnavalesca de origem portuguesa que se desenvolveu de diferentes maneiras no Brasil.
Rancho
forma organizada de manifestação carnavalesca que teve importante presença no Carnaval carioca.
Samba-enredo
composição musical criada para acompanhar e apresentar o enredo de uma escola de samba.
Enredo
narrativa ou tema que orienta a construção artística de um desfile.
Carnavalesco
profissional responsável pela concepção e direção artística do desfile, em diálogo com uma grande equipe.
Aderecista
profissional que trabalha na criação e produção de adereços.
Alegoria
elemento cenográfico de grande dimensão utilizado no desfile.
Ritmista
integrante da bateria que toca um instrumento de percussão.
Passista
integrante que realiza performances de dança e samba durante o desfile.
Mestre-sala e porta-bandeira
casal responsável por apresentar e conduzir simbolicamente a bandeira da escola durante o desfile.
Bateria
conjunto de ritmistas responsável pela execução da parte percussiva do desfile.
Uma ideia para guardar
O Carnaval brasileiro tem uma história longa e complexa.
Algumas de suas referências chegaram da Europa, especialmente por meio das tradições portuguesas.
Mas o Carnaval que se desenvolveu no Brasil foi transformado pelas experiências históricas e culturais de diferentes povos e comunidades.
As culturas africanas e afro-brasileiras e indígenas tiveram papel fundamental nesse processo, especialmente na formação das tradições musicais e culturais que marcaram o Carnaval brasileiro.
Por isso, estudar o Carnaval é estudar também a própria formação do Brasil e a identidade da cultura brasileira.
E talvez essa seja uma das maiores descobertas que uma visita à Rio Carnaval Expo pode proporcionar:
O Carnaval não é apenas aquilo que vemos na Avenida.
É tudo aquilo que uma sociedade aprende, cria, transforma e compartilha para chegar até ela.
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